A cada dia que passa, tudo parece ficar mais quente e em Marabá, onde o calor intenso faz parte da rotina, ventiladores e aparelhos de ar-condicionado trabalham por longos períodos para aliviar as altas temperaturas. O conforto, porém, tem um preço: quanto maior o consumo, maior a preocupação com a conta de energia. É nesse cenário que os telhados da cidade começam a ganhar uma nova função.
A energia solar fotovoltaica deixou de ser uma novidade restrita a poucos consumidores e passou a fazer parte da paisagem urbana de Marabá. Dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), atualizados em 20 de agosto de 2026, apontam 9.939 sistemas de geração distribuída no município, com 101,47 megawatts (MW) de potência instalada e 11.787 unidades consumidoras atendidas.
O volume coloca Marabá entre os municípios paraenses com maior presença da geração própria de energia. No recorte de nove cidades analisado pelo Açaí Notícias a partir do site da ANEEL, Belém aparece na liderança, com 29.331 sistemas e 264,36 MW. Santarém tem 13.845 sistemas e 141,67 MW, enquanto Ananindeua registra 11.390 e 97,68 MW. Marabá, com 9.939 sistemas, supera Ananindeua em potência instalada. Parauapebas, também no sudeste do Pará, soma 8.973 sistemas e 82,88 MW.
Os números ajudam a mostrar como a geração distribuída se espalhou por diferentes perfis de consumidores. No conjunto dos nove municípios analisados, predominam as instalações residenciais: são 84.765 sistemas desse tipo, de um total de 93.538. A expansão acontece, portanto, principalmente dentro de casa, e não apenas em grandes empreendimentos ou estabelecimentos comerciais.
Em Marabá, esse perfil é ainda mais evidente. Dos 9.939 sistemas registrados, 9.050 são residenciais. Outros 560 são comerciais e 159 estão classificados como rurais. Há ainda instalações nas categorias REBR, industrial e poder público. Os sistemas residenciais marabaenses somam cerca de 76,33 MW, enquanto os comerciais chegam a aproximadamente 20,16 MW e os rurais a 1,94 MW.
O cenário ajuda a explicar por que a energia solar vem ganhando espaço em uma cidade marcada por altas temperaturas. Para quem tem uma conta elevada e utiliza equipamentos de climatização por muitas horas, produzir parte da própria eletricidade aparece como uma maneira de reduzir uma despesa mensal que dificilmente pode ser eliminada.
Foi justamente o consumo alto que levou o eletrotécnico Osaias Ferreira dos Reis a instalar placas em casa. Antes da mudança, ele pagava entre R$600 e R$700 por mês pela energia. Depois da instalação, passou a pagar principalmente a iluminação pública, em valores entre R$100 e R$120. O investimento foi feito em 2022 e Osaias desembolsou R$32 mil por um sistema com 14 placas de 580 watts, financiado em 24 meses. Quatro anos depois, afirma que a instalação já se pagou e a economia também mudou a forma como a família utiliza a eletricidade, depois de instalar o sistema, ele colocou mais duas centrais de ar-condicionado na residência.
A experiência resume uma das razões para a expansão da tecnologia, uma vez que o consumidor não necessariamente deixa de consumir energia; ele passa a produzir parte dela. “Eu recomendo”, afirma Osaias, que atualmente faz a limpeza anual das placas, com custo informado de R$ 120 por serviço.
O movimento de Marabá faz parte de uma expansão maior no Pará. Segundo a Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (ABSOLAR), o Estado já possui cerca de 1,6 gigawatt (GW) de potência instalada em geração própria solar. São aproximadamente 162 mil sistemas, atendendo 202 mil unidades consumidoras. Os investimentos acumulados nessa modalidade chegam a cerca de R$ 6,4 bilhões.
A geração própria, porém, não se confunde com as grandes usinas solares. Na geração centralizada, formada por empreendimentos de maior porte, o Pará possui 17,2 MW de potência instalada, associados a R$ 78,1 milhões em investimentos, segundo a ABSOLAR. São modelos diferentes de geração, mas que fazem parte da mesma transformação da matriz elétrica.
Para Daniel Sobrinho, diretor estadual da ABSOLAR no Pará, Marabá tem papel de destaque nesse processo. Segundo ele, a tendência é de continuidade da expansão no município, estimulada pelo aumento da demanda por energia, pela busca de maior previsibilidade dos custos e pela queda dos preços das tecnologias fotovoltaicas e de armazenamento. O crescimento urbano e a diversidade das atividades econômicas também favorecem esse avanço, na avaliação da entidade.
A ABSOLAR aponta ainda possíveis efeitos econômicos da expansão, como geração de empregos e renda e circulação de recursos dentro dos próprios municípios. Em Marabá, contudo, a entidade não informou um número específico de empresas que atuam no setor no material fornecido. Os números mostram que a mudança não acontece apenas no campo das grandes usinas, ela está pulverizada em milhares de telhados, principalmente residenciais. Em Marabá, são quase 10 mil sistemas produzindo energia a partir da luz do sol; no Pará, o universo já passa de 160 mil instalações, segundo a ABSOLAR.
Em uma cidade onde o calor faz o ar-condicionado trabalhar quase como item básico, transformar a luz intensa do sol em eletricidade ganha um significado que vai além da tecnologia. Para o consumidor, o sol que pesa sobre o telhado durante o dia pode também representar uma tentativa de controlar melhor uma das contas mais presentes no orçamento: a de energia.