Uma avenida, várias histórias: 7 de Setembro reúne gerações em Marabá

O encontro de marabaenses no desfile municipal / Foto: Jefferson Lima

A bandeirinha pequena balançava de um lado para o outro nas mãos de Carlos Daniel, enquanto, alguns passos atrás, a mãe tentava acompanhar cada movimento do filho. Aos nove anos, ele ainda parecia mais interessado na novidade de estar ali do que na dimensão histórica da data. Para Maria Luiz, no entanto, aquela manhã carregava um significado que vinha de muito antes daquele 7 de Setembro.

Mãe e filho estavam juntos na Avenida Antônio Maia, na Marabá Pioneira, para a primeira participação de Carlos no desfile. A estreia do menino também era uma espécie de reencontro para Maria, que estudou na mesma escola representada pelo filho, a José Mendonça Vergolino. O que para ele era novidade, para ela tinha um pouco de memória.

“É muita emoção porque é a primeira vez que ele desfila. A gente fica ansioso, fica nervoso e quer acompanhar tudo de perto”, contou Maria, que trabalha como copeira. Ao lado dela, Carlos resumiu a experiência com a objetividade típica de quem tem nove anos. Perguntado sobre como estava sendo representar a escola, balançar a bandeirinha e passar pela avenida diante do público, respondeu simplesmente: “É bom. É beleza”.

Carlos ao lado da mãe, Maria

Talvez seja justamente nessa simplicidade que esteja uma parte do significado do desfile. Para algumas famílias, o 7 de Setembro não chega como uma cerimônia distante, mas como uma atividade que atravessa gerações. A escola que fez parte da infância da mãe agora aparece diante dela de outra maneira, com o filho ocupando o lugar que um dia também foi seu.

Alguns metros adiante, Maria Antonella já conhecia bem aquela sensação. Aos oito anos, ela participava pela quinta vez do desfile. Para quem olha de fora, poderia parecer apenas mais uma criança entre tantas que atravessavam a avenida uniformizadas, batendo palmas e acompanhando os colegas. Para ela, entretanto, havia uma familiaridade construída ao longo dos anos.

Sempre parece a primeira vez quando Maria entra na avenida

“É muito gratificante estar aqui. Eu gosto porque é muito legal”, disse a menina, que também estuda na José Mendonça. Sem grandes discursos ou explicações ensaiadas, Maria Antonella parecia traduzir o sentimento de muitas crianças que voltam à avenida ano após ano: o desfile já faz parte da infância.

E se para algumas delas a tradição já é conhecida, para outras a experiência representa uma mudança muito maior.

Na Escola São José, localizada no Km 8, 152 alunos participaram do desfile. Era a primeira vez que a instituição aparecia na programação depois de deixar a realidade da zona rural para integrar a região urbana de Marabá. A mudança, que pode ser percebida em números e endereços, ganhou outro peso quando chegou às crianças.

A professora Taídes Barros Brandão acompanhava os estudantes e percebia a ansiedade deles antes de entrar no percurso. Para a turma, havia muito mais em jogo do que aprender a formação correta ou seguir o ritmo da apresentação. Era a primeira experiência da escola naquele espaço.

Enquanto os alunos aguardavam a vez de desfilar, a avenida funcionava como uma janela para uma cidade que nem sempre consegue se enxergar por inteiro. Crianças vindas de diferentes realidades compartilhavam o mesmo asfalto, diante de um público que se distribuía pelas calçadas para assistir à passagem de cada grupo.

Ao lado dos alunos, Taídes comemora o primeiro desfile pela escola

Havia quem chegasse cedo e garantisse uma cadeira na sombra. Havia quem acompanhasse o desfile em pé, protegido por um guarda-sol. E havia quem simplesmente parasse por alguns minutos para ver uma banda passar, uma criança acenar ou uma formação militar avançar pela avenida.

Entre tantas histórias, também havia quem estivesse ali movida por uma tradição que não se explica apenas pela escola ou pela família.

Fernanda Alho participava do desfile ao lado de um grupo ligado à devoção a Nossa Senhora de Nazaré. Para ela, estar naquela avenida naquele dia era o cumprimento de uma missão assumida por fé. Antes mesmo de começar, a ansiedade já dava lugar à gratidão.

A fé marcou o desfile de Fernanda

“É um sentimento de ansiedade, mas principalmente de gratidão, porque eu vim cumprir uma missão que me foi dada por amor à nossa mãe querida, Maria. É uma felicidade estar aqui e poder cumprir essa missão”, afirmou Fernanda, que é professora.

A presença dela também revelava outra dimensão do 7 de Setembro em Marabá. A data, conhecida pelas demonstrações cívicas e militares, acabou reunindo diferentes maneiras de viver a tradição. Enquanto estudantes apresentavam projetos e bandas conduziam o ritmo da manhã, manifestações religiosas encontravam espaço entre o público.

Fernanda, que acompanha o desfile há anos, vê nessa continuidade uma forma de preservar algo que considera parte da identidade da cidade.

“Eu acho muito bonito continuar essa tradição e fazer com que ela vá passando para os nossos filhos. É uma cultura que a gente precisa valorizar para que não se perca esse momento tão bonito”, afirmou.

E talvez seja essa passagem de uma geração para outra que melhor explique a quantidade de famílias reunidas na avenida. Não se trata apenas de repetir todos os anos o mesmo percurso. Há quem volte porque já esteve ali quando criança, quem leve os filhos pela primeira vez, quem participe para cumprir uma promessa e quem descubra, naquele dia, uma experiência que poderá se repetir nos próximos anos.

Para Carlos Daniel, a história ainda começa com uma bandeirinha nas mãos e a descoberta de como é atravessar a avenida sendo observado por milhares de pessoas. Para Maria Luiz, começa muito antes, na lembrança dos próprios anos de escola. Para Maria Antonella, já virou uma parte da infância. Para os estudantes da São José, representa uma mudança de território e de rotina. Para Fernanda, é também uma demonstração de fé.

No fim, quando os uniformes começaram a desaparecer na direção do encerramento do percurso, ficaram as fotos, os vídeos e as histórias que cada família levaria para casa. O desfile terminava, mas algumas estreias apenas começavam.

Na Antônio Maia, a tradição não parecia estar parada no tempo. Ela caminhava, literalmente, de uma geração para outra.